Silver Apples, Entrevista com Simeon Cox lll

Com vocês o simpático Simeon que começou a entrevista assim: "As luzes estão baixas, a música pulsando e um copo de vinho repousa em minha mão: estou pronto para a primeira questão".

Trabalho Sujo - Como você conheceu o Dan? Você já tinha o conceito do Silver Apples na sua mente antes mesmo de conhecer ele?

Simeon - Danny era o baterista em uma destas bandas de bar, eu era o cantor em outra. Quando minha banda acabou, nosso agente me colocou na banda do Danny, porque eles estavam precisando de um vocalista. Foi assim que nós nos conhecemos. Fazia um tempo que eu estava brincando com a idéia de usar osciladores como um instrumento de uma banda de rock, e quando eu mostrei a idéia para a banda do Danny, eles acharam legal eu tentar algo durante os longos improvisos deles, que rolavam no final dos shows. Todo mundo na banda odiou, menos o Danny. Todos caíram fora, deixando só eu e o Danny, dai nós decidimos mudar o nome da banda para Silver Apples após notarmos um poema do W. B. Yeats chamado The Song of the Wandering Angus, que estava pregado na minha parede, neste poema Yeats fala sobre às maçãs douradas do sol e as maçãs prateadas da lua. A música se desenvolveu organicamente, de maneira que minha voz e meus osciladores se integraram com a bateria de Danny. Nós não tínhamos idéias preconcebidas de como a música deveria ser.

Trabalho Sujo - Você estudou algo relacionado com eletrônica? Como você descobriu todo o lance do oscilador?

Simeon - Eu nunca estudei eletrônica. Eu tinha um amigo que era um compositor "sério" que possuía um oscilador em sua sala, ligado no seu aparelho de som. Toda noite ele tomava uma vodka e tentava tocar este oscilador junto com músicas do Beethoven e do Bartok. Eu pensei: por que não com NOSSO tipo de música? Então depois de assistir ele tocando, eu passei lá, tomei uma vodka junto com ele e coloquei um disco do Wilson Pickett para rolar. Quando o sol raiou, eu ainda estava lidando com aquilo. Eu não acreditava em como era divertido fazer aquilo... E mesmo quando eu tinha algum problema com a afinação, eu pensei que era como no violino: você tem que praticar. Então eu perguntei onde poderia comprar um oscilador, então ele virou e disse: "pode pegar este, já estou de saco cheio disso".

Trabalho Sujo - Vocês estavam em contato com a cena de vanguarda de NY daquela época?

Simeon - Nós éramos uma banda que tocava regularmente no Max’s Kansas City. Por um bom tempo, fomos a única banda que podia tocar no andar de cima do Max’s (depois que nós acabamos o Blondie e o Dylan com a The Band tocaram lá em cima, mas nós fomos os primeiros), e como você sabe, o Max's era o lugar onde todo este pessoal da vanguarda ficava. O Velvet e aquela turma do Warhol pintava por lá, assim como artistas como Chamberlain e Bob Rauschenberg... uma turma bem legal.

Trabalho Sujo - Como a Kapp Records entrou em contato com vocês para lançar o primeiro disco?

Simeon - Nosso agente estava tentando encontrar aqueles executivos de gravadoras em bares e convidando eles para assistirem nossos ensaios e escutar algo "realmente diferente". A maioria correu, tampando seus ouvidos, mas este cara da Kapp voltou. Finalmente ele nos ofereceu um contrato, e desde que era o único que nós tínhamos, nós acertamos com ele. Acho que nós éramos a única banda de "rock" do selo, o resto era basicamente piano de bar e gospel.

Trabalho Sujo - Foi difícil gravar o primeiro disco? Acho que poucas pessoas daquela época tinham conhecimento do tipo de música que vocês estavam tentando desenvolver.

Simeon - O maior problema foi gravar sem que "tonalidades extras" atrapalhassem o resultado. Sem falar em termos técnicos, quando você toca uma corda de guitarra ou de piano, você não somente consegue a nota que você queria, como outras notas que são criadas pelas vibrações da corda, todas estas "tonalidades extras". O engenheiro de som pode manipular estes tons para dar mais graves, mais riqueza, mais presença, maiores agudos, etc. Mas com um oscilador você só tem a nota pura. Quando você pode para ele colocar mais definição na faixa do baixo, ele diz: "mas aqui não tem nada!". Eu passei a maior parte do tempo, nestas primeiras gravações, tentando todos os tipos de filtros e efeitos para gerar "tonalidades extras" para que os engenheiros tivessem com o que trabalhar.

Trabalho Sujo - Ao mesmo tempo que os Silver Apples começavam toda esta experimentação envolvendo música eletrônica, a cena alemã, que todos nós conhecemos como Krautrock, também estava trabalhando com similares propostas. Você conhecia estas bandas, como Faust e Can? Quando eu escuto o NEU!, eu sempre penso que eles tiraram muito daquilo do background dos Silver Apples.

Simeon - Nós estávamos em outro vibe naquela época. Nós estávamos tentando fazer rock e não música experimental eletrônica, nossas maiores influências eram Fats Domino, Wilson Pickett, Sam and Dave e claro coisas tipo Beatles e Stones, porque eles estavam no rádio o tempo todo. Eu comecei a prestar atenção no som alemão alguns anos atrás... um dia o Holger Czukai (do Can) estava fazendo um show em NY e eu fui até o backstage para falar com ele, depois de me apresentar e falar o quanto eu apreciava a sua música, ele simplesmente saiu andando! Durante minha apresentação ele me disse que não conhecia o Silver Apples.... então após isso, eu simplesmente sai.

Trabalho Sujo - Quando o segundo disco Contact foi lançado, vocês começaram uma tour. Como as pessoas reagiam?

Simeon - Dependia de onde nós estávamos. Nos arredores de NY, nós tínhamos um grande público, assim como nas cidades do meio-oeste como Detroit, Chicago e Cincinatti. Mas na costa oeste, as pessoas estavam todas naquele vibe do psicodelismo e do hippie, de maneira que ninguém entendia nada. Nós fizemos um show no Fillmore em São Francisco e o público foi basicamente umas vinte pessoas chapadas de ácido com suas roupas floridas, rodopiando na pista. Nós ficamos um verão inteiro na costa oeste tocando nos mais variados lugares, basicamente onde deixavam nós tocarmos, o que aconteceu é que nós fomos expulsos de vários destes lugares. Nós gostávamos de tocar em NY, tocávamos melhor lá.

Trabalho Sujo - Então surge o album perdido, que a Kapp não lançou. Dai o hiato de 24 anos, que é quebrado pela gravadora alemã lança o CD duplo do Silver Apples. O que você ficou fazendo neste meio tempo? E como você reagiu quando as pessoas começaram a falar novamente sobre os Silver Apples?

Simeon - Depois que fomos expulsos da Kapp, Danny e eu escolhemos diferentes caminhos. Nenhum dos dois foi fazer música. Depois dos Silver Apples, eu não consegui fazer nada certo. Danny começou a mexer com vendas e produção de TV e eu voltei a ser um artista, o que eu era antes de fazer rock. Durante todo este tempo eu fiz exibições por todo o país e pensava ter uma carreira promissora, mas dai um amigo me contou sobre este CD alemão e sobre o tributo inglês ao Silver Apples... após isso resolvi voltar. Eu ainda pinto, tenho um atelié ao lado do estúdio de ensaios/gravações do Silver Apples no Alabama. Mas voltando à sua pergunta, eu não sei como reagir quando as pessoas falam sobre a minha música. Eu somente toco o que gostaria de ouvir, o que acontece, acontece.

Trabalho Sujo - Cair na estrada novamente é um processo natural? Lembro que quando o single "Fractal Flow" saiu, muitas pessoas escreveram que você estava melhor do que nunca.

Simeon - Yeah, eu acho que é um processo natural. Desde 96, eu fiz 3 tours americanas, uma européia e outra japonesa como trio. Depois eu reformei a banda como dupla, com Joe Propatier como baterista, e nós fizemos mais uma tour americana e outra inglesa. Cerca 150 shows. Então eu achei Danny depois e procurá-lo por muito tempo! Fizemos vários shows na área de NY e pelo fato de que ele tem seu trabalho e sua família, não poderemos fazer uma tour juntos. Eu fiz um show no meio deste ano em Londres, mas tocando sozinho, e provavelmente vou fazer mais um nesta linha. Se eu for fazer mais uma tour com um baterista, provavelmente será com o Joe.

Trabalho Sujo - Você bateu a van durante a tour, certo? Você já se recuperou?

Simeon - Foi após um show me NY com Danny. A van capotou umas cinco vezes. Danny saiu andando ileso. Eu quebrei meu pescoço e fiquei paralizado do pescoço para baixo. Não podia me mover ou sentir nada. Depois de um ano de terapia, agora eu posso andar e posso usar parcialmente minhas mãos e braços. Posso tocar meus osciladores, mas os teclados são um problema. Tenho praticado por horas todo dia.

Trabalho Sujo - Quais são os próximos passos?

Simeon - Fui convidado para um show em NY em janeiro. Estou ensaiando muito para ficar bom o suficiente para dar este show, dai vou ver o que rola. Eu tenho vários sons para gravar e estou me preparando para fazer isso.

Trabalho Sujo - Você imagina que tem alguns fãs no Brasil?

Simeon - Sei que vendemos alguns discos por ai. É estimulante saber que tem gente ai que gosta dos Silver Apples. Adoraria visitar o Brasil um dia.


Trabalho Sujo - O que você acha de todo este lance que está acontecendo com a música eletrônica?

Simeon - Eu escuto todos os tipos de música. Como todas as formas de expressão/performance criativa. Não importa o quão grande é a idéia, se ela não foi bem executada, não tem sentido. Eu tenho escutado algumas performances muito chatas e sem inspiração do Mozart, que não tem explicação. A mesma coisa com a música eletrônica. A grande maioria é semelhante, mas quando eu estava em Tóquio, fui até uma rave onde um DJ chamado Matsuri estava tocando e eu fiquei chapado. Quando é legal, pode ser muito excitante.

Trabalho Sujo - E para finalizar, conte sobre a sua parceria com o Sonic Boom (ex-Spacemen 3, atualmente no Spectrum).

Simeon - O Silver Apples fez alguns shows em 97 junto com o Spectrum. Depois do primeiro, que foi em Boston, Sonic foi falar comigo e me deu uma maçã prateada musica, que ele mandou fazer em minha homenagem, me contando que era fã desde que era pequeno. Eu fiquei muito alegre pois sempre gostei de Spacemen 3 e do seu trabalho com o Spectrum. Escutei sua versão de "A pox on you", e perguntei se poderia cantar esta música durante sua apresentação. Ele concordou, mas pediu para tocar theremim em "You and I", o que eu concordei sem a menor dúvida. A audiência pirou durante nossas apresentações, e nós fizemos isso nos próximos 3 shows, sendo que o último foi em NY, concordei que na próxima vez que estivesse na Inglaterra, sua gravadora poderia reservar um estúdio para nós gravarmos algo juntos. Nos meses posteriores, nós trocamos fitas com idéias, e então quando eu fui para a Inglaterra, nós gravamos juntos.

Todos os créditos da entrevista ao blog Trabalho Sujo, do Alexandre Matias, com muitos textos e resenhas de música (
www.trabalhosujo.blogspot.com/).



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